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O Toque de Midas

O mito do rei Midas tem como mote a ambição por matéria, porém sua atemporal simbologia resulta em ferramenta para a compreensão da vida em grupo, suas afecções e detalhes que dão liga ou desconectam os humanos à sua natureza social.

Rei Midas é um personagem da Mitologia Grega Clássica. Midas, segundo o mito, desejava adquirir o dom da riqueza infinita. A história, apesar da sua aparente simplicidade, é uma reflexão sobre a tão humana avareza e seus controversos desdobramentos.

Na cultura ocidental, ainda que não se conheça a narrativa mitológica, sabe-se que “o toque de Midas” – alusão ao poder que o rei tinha em transformar tudo o que tocava em ouro – é sinônimo de talento e competência para a multiplicação de bens materiais. Quem faz crescer todo capital que gerencia é sempre lembrado como o “Midas” da área de sua atuação.

Desconheço, mas teriam os gregos inventado um mito para o azarado, também conhecido como “dedo podre”, que, mesmo bem intencionado, tudo o que logra é dilapidar patrimônios?

Patrimônio. No sentido estrito, significa “conjunto de bens”. Bem pode ser material, ou seja, tudo o que ao ser contabilizado documenta um inventário, ou imaterial; subjetivo e impalpável. O termo “patrimônio moral”, positivo ou negativo, é usado como atributo no que se refere a pessoas, equipes ou corporações.

O mito do rei Midas tem como mote a ambição por matéria, porém sua atemporal simbologia resulta em ferramenta para a compreensão da vida em grupo, suas afecções e detalhes que dão liga ou desconectam os humanos à sua natureza social.

Vincenzo, um jovem que já passou dos setenta anos, é um amigo querido. Imigrante, ainda na meninice veio da Itália sozinho para trabalhar na Mooca. À época, em meio à fumaça das indústrias, uma rica e próspera região da capital paulista.

Barulhento, saudável, espirituoso, e solidário, Vincenzo é um “Midas” das relações humanas. A ínfima manifestação afável a ele dirigida vira “ouro” e se alquimiza em alegria genuína. A alegria do momento vai se multiplicando a cada relato efusivo sobre o ocorrido. Contagia o seu entorno. Um simples cafezinho no balcão da padaria é um festivo encontro e motivo de celebração, sabe-se lá de quê. Vincenzo celebra ter acordado sem dores, celebra os cinco sentidos que ainda funcionam, celebra o dia bonito, celebra o dia chuvoso que, na visão desse adorável “carcamano”, é um jeito diferente de tempo bom. Reverencia as forças e as belezas do universo, em especial, do universo que usa saia.

Pessoas como Vincenzo, ao longo da existência, atraem forças positivas e pessoas positivas. Acumulam bens imateriais que se edificam em valiosíssimo patrimônio afetivo.

Agora, uma notícia meio chata. Seguindo o raciocínio dos antigos sofistas, nada existe sem o seu diferente, logo, o mundo não está a salvo daquele sujeito dedo podre que azara tudo – e todos – que a ele tange, o dotado de talento e vocação para vudu. Mas, quando o assunto é vudu, sou pura superstição. Não aprecio muito as nuvens negras. Assim sendo, fiquemos com o Vincenzo e seu imprescindível toque de Midas. Não é melhor assim?

Texto de Maria Balé, colunista do Primeiro Programa da Rádio Transamérica FM. Este post foi autorizado pela autora.

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