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Um adorável monstrinho na neve!

Histórias em quadrinhos, alimentadas por alter-egos, ademais da representação do comportamento de uma sociedade, sua cultura e seu tempo, são um eficiente instrumento de catarse.

Crianças. Tem coisa melhor que uma criança boazinha e bem comportada? – Tem. Uma criança bem pestinha, inteligente e insubordinada, é claro.

Calvin and Hobbes – Calvin e Haroldo no Brasil -, personagens da história em quadrinhos criada, escrita e ilustrada pelo norte americano Bill Watterson no período entre 1985 a 1995, é um exemplo de que, na infância, inteligência criativa e submissão, são elementos que se anulam mutuamente. As tiras com as aventuras de Calvin, editadas em cerca de dois mil veículos do mundo inteiro, no Brasil são publicadas no jornal O Estado de S.Paulo.

Calvin é um garoto de seis anos de idade e personalidade forte. Tem como companheiro e arremedo de guru, Hobbes/Haroldo, um tigre sábio e sardónico, que para ele é tão vivo quanto um amigo de carne e osso. Porém, para os outros, Haroldo não passa de um distônico e amarrotado tigre de pelúcia.

Calvin nunca soube, e foi melhor assim, mas teve uma antecessora nas suas articuladas traquinagens. Como ele, a rebelde e politizada Mafalda, criação de Joaquin Salvador Lavado, o Quino, é expert emfantasias mirabolantes com as quais constitui espetaculares fugas da opressora realidade do mundo moderno. Imagina se Calvin, com sua precoce misoginia, soubesse que muito antes dele, no ano de 1964, num país da América do Sul, a Argentina, havia nascido outra mente brilhante, na insondável cabeça de uma menina. Seria um desastre para sua auto-estima. Tentaria o suicídio, não há dúvidas. Sem sucesso, por suposto.

A publicação do dia 06 de janeiro de 2009 traz um Calvin revoltadíssimo por ter sido encarregado de retirar com uma pá a neve acumulada na porta de sua casa. Agasalhado e com um gorro cobrindo toda a cabeça, o arredio menino esbraveja, “cospe marimbondo” e reclama porque seu pai não comprou um soprador de neve mecânico. Diz que sua família deve ser a única no mundo que ainda retira as partículas geladas com uma medieval ferramenta doméstica. Como seus argumentos não o livram da obrigação, apela para a chantagem emocional dizendo que está se congelando. O pai, firme e sereno, responde que isso é bom para fortalecer o caráter e ordena que continue.

Neste, e em muitos episódios parecidos, Bill Watterson, teórico conhecedor da alma dos pequenos, com graça e humor fino, critica o way of life que suprime as necessárias dificuldades as quais nossas crianças têm o sagrado direito de enfrentar. Foca a luz na armadilha que leva famílias pós-modernas e bem intencionadas a acreditar que se submetendo à ditadura de guris mimados, retirando as pedras dos seus caminhos e poupando-os das tarefas do dia-a-dia, estão indubitavelmente exercendo o afeto necessário para o desenvolvimento saudável de tão amadas criaturas. Ledo engano. Vagabundos, portadores de caráter flácido e inéptos para a auto-sustentabilidade são produzidos em série no nefasto culto à vida fácil.

Ao fim de dez anos de publicação – a última edição foi em 31 de dezembro de 1995 -, os fãs consideram Calvin & Hobbes uma obra prima pela sua visão única do mundo, pela imaginação do protagonista e pelas situações insólitas que se estabelecem.

Histórias em quadrinhos, alimentadas por alter-egos, ademais da representação do comportamento de uma sociedade, sua cultura e seu tempo, são um eficiente instrumento de catarse. Com elas o artista explora aspectos universais da condição humana, seus desejos, seus temores, seus equívocos e seus acertos, criando assim uma relação de cumplicidade empática com os seus leitores.

A saga de Calvin, o intrépido pirralho de cabelinho espetado e seu desajeitado tigre surrado, sintetiza as dores e os amores dos que conhecem a vida selvagem e não se cansam de perguntar a si mesmos: Como pude viver tanto tempo sem esse monstrinho?

Texto de Maria Balé, colunista do Primeiro Programa da Rádio Transamérica FM. Este post foi autorizado pela autora.

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